Recebo pais consternados com o mutismo de seus filhos adolescentes. Monossilábicos, respondem sim ou não, tudo normal —deixando sem resposta questões simples como: como foi seu dia, como está indo na escola, quer alguma coisa???
Uma mãe que eu atendi chorava de tristeza, enquanto o pai, com raiva, dizia deixa para lá, não precisamos nos importar com ela.
Como se importar sim, mas sem desesperar ou retaliar? Continuar buscando a comunicação apesar do nosso ego estar massacrado pela rejeição do filho (a)?
Muitos são os motivos desta conduta indiferente e, provavelmente, nenhum deles envolve falta ou perda do amor por você. É comum os “jovens adultos” não saberem como comunicar o que estão sentindo, terem vergonha de mostrar seu lado mais independente, ficarem inseguros com medo de serem rejeitados ou causarem decepção aos pais. Ficar quieto e indiferente pode ser uma conduta cautelosa.
A decepção, frequentemente, pode ser de si mesmo, que é o mais baixinho da turma, que não tem seios ainda, ou que está gordinho e não se destaca corporalmente.
A adolescência é tipo uma grande obra em construção no corpo e na cabeça. De repente seu filho começa a crescer muito rápido (estirão de crescimento), o corpo muda de forma (nas meninas, seios e quadris se desenvolvem; nos meninos, a voz engrossa e aparece barba). Enquanto isso, o cérebro deles, especialmente a parte que planeja a tomada de decisões (o córtex pré-frontal), ainda está se arrumando, fazendo com que sejam mais impulsivos e queiram experimentar coisas novas.
E tudo isso acontece por causa de uma bagunça de hormônios que são liberados no corpo (ativação do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG).). Hormônios são “chefões” que mandam construir e modificar tudo, fazendo surgir, aos poucos, um corpo de um adulto. É uma fase de muitas descobertas e adaptações, tanto por fora quanto por dentro!
Tomar consciência e identificar por que seu filho adolescente não quer falar com você pode ajudar você a descobrir como prosseguir e fazer os ajustes necessários.
Aqui estão algumas razões pelas quais seu filho adolescente não quer conversar:
Dificuldade em expressar sentimentos e emoções em palavras: Essa é uma tarefa difícil até mesmo para adultos.
Sentir-se ansioso e estressado: Demandas acadêmicas, rompimentos, conflitos nos relacionamentos, mal-entendidos entre amigos… Em meio a tudo isso, o silêncio pode parecer um alívio para o estresse e a ansiedade. Falar pode trazer de volta sentimentos dolorosos que a pessoa está tentando evitar.
Vergonha de discutir seus desafios ou dificuldades: Pedir conselhos pode parecer um sinal de fraqueza. Lutar sozinho pode ser interpretado como força. Muitos adolescentes relutam em conversar com os pais porque acreditam que “deveriam ser capazes” de lidar com tudo sozinhos.
Medo de decepcionar os pais ou receber uma resposta negativa ou punitiva: O maior medo do seu filho adolescente pode ser justamente decepcioná-lo ao mostrar seus erros e fragilidades. Ele já prevê como vocês costumam reagir — com críticas, julgamentos ou punições. Permanecer em silêncio parece mais seguro.
Muitas perguntas: Alguns pais interrogam demais, fazendo perguntas detalhadas e sucessivas, como se o filho estivesse diante de um júri implacável. Isso pode gerar bloqueio em vez de abertura.
Eles sentem que você não confia neles: Como se abrir e contar algo difícil se já se espera ser julgado ou culpabilizado? A falta de confiança percebida bloqueia a vulnerabilidade.
Você transforma a conversa em algo sobre você: A pessoa compartilha algo importante e, em vez de escutá-la plenamente, você traz sua própria experiência, tirando o foco dela. Lembre-se: esse é o momento do outro, não o seu.
Como fazer seu filho adolescente falar com você
Você não pode forçar seu filho adolescente a conversar, mas pode criar um ambiente seguro, acolhedor e positivo, onde ele se sinta à vontade para se abrir.O que ajuda a abrir o canal de comunicação:
Esteja disponível Mostre que tem tempo para ele, mesmo sem agenda formal. Deixe a porta do quarto aberta, evite estar sempre no celular e crie oportunidades espontâneas de conversa.
Mantenha uma presença calma e acolhedora Evite transmitir estresse, raiva ou julgamento. Um ambiente emocionalmente seguro estimula a aproximação.
Valorize e elogie genuinamente Reconheça os esforços do seu filho, mesmo em pequenas ações. Elogiar o que ele valoriza fortalece a autoestima e a conexão.
Comunique-se da forma que ele prefere Use o canal de comunicação com o qual ele se sente mais confortável: mensagens, bilhetes, emojis ou conversas informais. Observe como ele se comunica com os amigos.
Repare a relação Se houve afastamento, reconheça sua parte e demonstre desejo sincero de melhorar a relação. Peça feedback: “Como posso fazer com que você se sinta mais à vontade para conversar comigo?”
Valide os sentimentos dele Se ele se abrir, escute com calma, sem interromper ou julgar. Reflita sobre o que ele diz, valide sua dor e, se necessário, peça desculpas.
Tenha empatia Lembre-se de como era ser adolescente. O que você sentia? O que precisava dos seus pais? Essa reflexão pode ajudar a entender melhor seu filho hoje.
Importante lembrar:
Seu filho não está contra você — ele está lidando com mudanças intensas (físicas, emocionais e sociais).
A adolescência pode ser confusa e solitária. Sua presença estável é mais valiosa do que conselhos prontos.
A única coisa que você pode controlar é a sua resposta.
Não desista. Mesmo que ele esteja fechado agora, isso pode mudar.
Recentemente, um post de um colega psiquiatra trouxe à tona uma questão que merece nossa atenção: a relação agressiva entre meninas nas escolas. Ao contrário do que geralmente se pensa, o bullying feminino raramente se manifesta através da violência física. Em vez disso, sua forma mais comum é a agressão emocional e relacional.
Agressão relacional , o Bullying das Meninas
Na Agressão Relacional ou Emocional, as “armas” utilizadas são; manipulação de relacionamentos, exclusão de grupos sociais, disseminação de fofocas e humilhações. Muitas vezes, situações dramáticas e até absurdas são criadas por meio de boatos, comentários maldosos e exclusões nas redes sociais. Isso transforma a agressão em uma experiência psicológica dolorosa, que pode deixar marcas profundas e duradouras, corroendo a autoestima e desestabilizando a confiança da vítima.
A Diferença entre Meninos e Meninas
Estudos mostram que, entre meninos, a agressão tende a ser mais direta e física. Eles conseguem superar esses conflitos de forma mais rápida, sem grandes sequelas a longo prazo. Essa diferença de dinâmica é crucial para entendermos a complexidade do bullying entre meninas.
Quem é a “agressora? ”_ o que leva uma menina a agredir a outra
A dinâmica do bullying muitas vezes reflete mais as vulnerabilidades do agressor do que as da vítima. Baixa autoestima, a projeção de sentimentos de inferioridade e emoções como raiva, ciúmes e vergonha são motivações comuns que levam uma menina a agredir outra. A retirada do amor e da amizade, assim como a exclusão do grupo, principais armas de ataque são, provavelmente, experiências que a própria agressora sentiu ou sente em outros contextos de sua vida.
A Influência dos Estilos Parentais
Pesquisas revelam uma correlação entre estilos parentais e o bullying. Crianças que sofreram violência em casa frequentemente reproduzem esse comportamento em suas interações sociais, tornando-se perpetuadoras do sofrimento que um dia vivenciaram. Essa dinâmica complexa ressalta a importância de intervenções que abordem tanto a agressão quanto o suporte emocional necessário para promover relacionamentos saudáveis entre as jovens.
É fundamental que pais, educadores e profissionais da saúde mental se unam para identificar e combater o bullying emocional nas escolas. Juntos, podemos promover um ambiente seguro e acolhedor para todas as meninas, garantindo que elas possam se desenvolver plenamente, sem o peso de agressões emocionais que podem marcar suas vidas.
Vamos trabalhar juntos para criar um espaço onde o respeito e a amizade sejam a norma, e não a exceção. A mudança começa com a conscientização e a ação de cada um de nós!
O Que Pode Ser Feito?
Vítimas de bullying emocional nas escolas podem tomar várias medidas para lidar com a situação e buscar apoio. Aqui estão algumas sugestões:
Falar com Alguém de Confiança: É importante que a vítima compartilhe suas experiências com alguém em quem confia, como pais, amigos ou professores. Conversar sobre o que está acontecendo pode aliviar a carga emocional e ajudar a encontrar soluções.
Documentar os Incidentes: Manter um registro dos episódios de bullying, incluindo datas, locais, o que foi dito ou feito e testemunhas, pode ser útil para relatar o problema às autoridades escolares.
Buscar Apoio Psicológico: Conversar com um psicólogo ou conselheiro pode proporcionar um espaço seguro para expressar sentimentos e aprender estratégias de enfrentamento. O apoio profissional pode ajudar a construir a autoestima e a resiliência.
Crianças Quietas São Maiores Vítimas: Estudos mostram que as vítimas de bullying e abusos variados costumam ser crianças mais quietas e boazinhas, que geralmente não se queixam e evitam conflitos. É muito importante avaliar e desenvolver suas habilidades sociais.
Desenvolver Habilidades Sociais: Participar de atividades extracurriculares ou grupos sociais pode ajudar a vítima a fazer novos amigos e desenvolver habilidades sociais, reduzindo a solidão e a vulnerabilidade ao bullying. Atividades como teatro amador ajudam a desenvolver assertividade, lidar com críticas e valorizar-se, o que pode proteger a vítima de futuros episódios de bullying.
Confrontar o Bullying de Forma Segura: Em alguns casos, a vítima pode optar por se afirmar de maneira assertiva (mas segura) em relação ao agressor. Isso deve ser feito com cautela e, se possível, na presença de um adulto.
Informar a Escola: Comunicar o bullying a um professor, diretor ou conselheiro escolar é fundamental. As escolas têm a responsabilidade de garantir um ambiente seguro e podem tomar medidas para abordar o problema.
Participar de Programas Anti-Bullying: Envolver-se em iniciativas escolares que promovam empatia e respeito pode ajudar a criar um ambiente mais positivo e oferecer suporte.
Praticar o Autocuidado: Engajar-se em atividades que trazem alegria e relaxamento, como esportes, hobbies ou arte, pode melhorar o bem-estar emocional e fortalecer a autoestima.
Procurar Recursos Externos: Existem organizações e linhas de apoio que oferecem orientação e assistência a vítimas de bullying. Buscar essas opções pode fornecer suporte adicional. É fundamental que as vítimas de bullying emocional saibam que não estão sozinhas e que existem caminhos para buscar ajuda e proteção.
Como Posso Ajudar Minha Filha com Estas Questões?
Se você suspeita que sua filha está sofrendo bullying:
A educação é fundamental. Converse com sua filha sobre o que é bullying e como identificá-lo. Compartilhe sua própria experiência; a maioria dos pais tem vivências semelhantes, o que pode ajudá-la a entender que não está sozinha.
Ofereça apoio incondicional, criando um ambiente seguro para que ela se sinta à vontade para conversar. Outros adultos de confiança, como professores e coordenadores, também podem intervir. Caso haja ameaça física ou agressão, denuncie, pois são crimes que precisam ser reportados para evitar que se intensifiquem.
Dê à sua filha um diário para incentivá-la a escrever livremente sobre como se sente. Escrever ajuda a conter sentimentos de vergonha e humilhação que podem ser difíceis de expressar.
Ensine sua filha a ignorar o agressor e a se afastar, mostrando que o comportamento não a afeta. Essa atitude pode desarmar a situação.
Estimule a autoconfiança e uma postura ereta, pois essa linguagem corporal transmite força e menor vulnerabilidade, podendo dissuadir os agressores.
Desencoraje a violência, deixando claro que reagir com agressão pode trazer mais problemas. Sugira formas saudáveis de canalizar a raiva, como esportes ou atividades criativas.
Se for seguro, apoie o diálogo com o agressor, para que sua filha possa expressar que o comportamento é prejudicial. Ajude-a a praticar respostas assertivas, verbais ou não verbais, para que se sinta mais segura.
Incentive o diálogo e o apoio profissional, como psicólogos ou amigos, para que ela possa desabafar seus medos e frustrações.
Seja um exemplo de comportamento adequado ao lidar com conflitos. Nossos filhos estão sempre nos observando e aprendendo conosco. Incutir confiança em nossos adolescentes pode ser desafiador, mas é vital. Ajude-os a superar isso, demonstrando autoestima.
Reforce a importância das amizades verdadeiras, orientando sua filha a buscar a companhia de amigos e a evitar ficar sozinha em situações de risco, especialmente se o bullying envolver fofocas ou isolamento.
Estimule a empatia, incentivando-a a defender vítimas ou a buscar ajuda se presenciar bullying.
Por fim, envolva-se com a escola, conhecendo seus programas de prevenção e, se necessário, conversando com a direção sobre a criação de iniciativas contra o bullying.
Gostaria de sugerir a leitura de um livro de Rachel Simmons, que tem tradução em português: “Garota fora do jogo: A cultura da agressão oculta entre meninas.” (link de compra)
No 20° Congresso Brasileiro de Psicodrama em 2016 dirigi , com auxílio das psicodramatistas Maria Célia Malaquias[1] e Cristine G. Massoni[2] um sociodrama grupal com o título: Dor Étnica: orgulho, vingança e reparação. Foi um trabalho intenso, que utilizava, como técnicas centrais, o psicodrama interno e o compartilhar grupal.
Temas como: distúrbios étnicos, narcisismo[3], narcisismo grupal[4], racismo[5], vergonha, vingança e reparação já constavam das preocupações teóricas da diretora e da ego auxiliar. Neste sociodrama busquei, através de consignas muito estruturadas, as alianças grupais dos participantes, suas primeiras “tribos” e quais eram os sentimentos, emoções, legados positivos ou negativos desta pertinência.
Várias consignas estimulavam a identificação de sentimentos de orgulho. Por exemplo, quais aprendizados valiosos cada participante carregava consigo, até hoje, advindos desta primeira inserção social. Outras consignas propunham a rememoração de cenas de vergonha, onde o mesmo grupo primário havia sido ofendido ou havia sido ofensivo com outro grupo ou com outrem.
No final do trabalho solicitei que os participantes escrevessem pedidos de desculpas, tanto as desculpas que gostariam de ter ouvido em relação ao seu grupo, como aquelas que achavam que seu grupo deveria pedir a outros.
E foi aí que me surpreendi e é onde este novo trabalho começa. Registreis cerca de 50 pedidos de desculpas, sobre os mais diferentes temas: famílias pedindo desculpas para outras famílias, pais para filhos, nacionalidades para outras nacionalidades, adultos para crianças, ricos para pobres, times de futebol, religiões entre si, etc. ( leiam os pedidos de desculpas no apêndice final ) [i].
A intensa carga de emoção expressa nestes pedidos de desculpas me fez indagar se eles seriam efetivos numa mudança de atitude dos participantes do workshop.Na realidade resolvi investigar a literatura especializada sobre o tema “desculpas”, tanto no nível individual quanto grupal e como seria possível instrumentalizar este conhecimento em futuros sociodramas.
O QUE É PEDIR DESCULPAS?
Segundo Tavuchis (1991:27) um pedido de desculpas é uma fala que busca o perdão por algum erro cometido, reparando injustiças e restaurando a dignidade da parte ofendida.Desde crianças somos ensinados por pais e professores a pedir e aceitar desculpas, uma vez que nós , seres humanos, somos falíveis e precisamos consertar erros relacionais. A não aceitação de uma desculpa transforma , ironicamente, a vítima no transgressor, porque ela evita que estas reparações sejam feitas.
Existem diferentes categorias de desculpas: desculpas entre indivíduos ( um amigo que foi injusto com outro) ; entre indivíduos e grupos (um executivo pede desculpas por um acidente numa usina), entre grupos (um time de futebol pede desculpas ao outro pela violência da torcida); desculpas nacionais (o governo australiano para seus aborígenes, por ter-lhes roubado a terra)[6]; internacionais ( A Bélgica pede desculpas por genocídio em Ruanda em 1994)[7], desculpas diplomáticas (as desculpas da China ao Japão por apreender o navio a vapor japonês Tatsu Maru em 1908)[8], desculpas históricas ( por crimes contra a humanidade , como por exemplo a Alemanha em 1990 para os judeus, pelos crimes do holocausto)[9].
Talvez em Psicologia pudéssemos acrescentar as desculpas intrapsíquicas, onde a própria pessoa se desculpa por algo errado que fez para si mesmo, para sua vida.
O SURGIMENTO DE UMA ERA DE DESCULPAS
Parece que houve um modismo Internacional nos últimos anos do século passado, com vários pedidos de desculpas sucessivos. Segundo Lazare (2004) foram publicados, de 1990 a 1994, 1193 artigos que continham as palavras “desculpas” ou “pedir desculpas”. Em 1970, o chanceler alemão Willy Brandt ajoelhou-se frente a um memorial para lembrar as vítimas do Holocausto , simbolizando o reconhecimento dos erros do passado e o desejo de reconciliação entre alemães e judeus. Celermajer (2006:17) , apropriadamente, aponta que partir deste momento “a moralidade começa a se tornar uma força política” .
Durante os anos 80 e 90 o papa João Paulo II pediu desculpas por nada menos do que 94 coisas, dentre elas: pelas Cruzadas e Inquisição, pelo obscurantismo científico da igreja, pelo tratamento dispensado a Galileu, pela opressão das mulheres e pelo silencio da Igreja durante o Holocausto. Ele fez estes pedidos como preparação para o novo milênio, pois acreditava que não se pode curar o presente sem fazer reparações pelo passado.
A fig. 1 sumariza alguns pedidos de desculpas diplomáticas e históricas :
Os acadêmicos, incluindo sociólogos, cientistas políticos e estudiosos dos direitos humanos têm tentado compreender o fenômeno da desculpa e reconciliação através de perspectivas políticas, sociais, históricas, religiosas, morais, antropológicas e legais. Por que as desculpas se espalham por toda a comunidade global? Quais são as repercussões políticas dessas desculpas? As desculpas podem ser eficazes? Em caso afirmativo, quais são os componentes que fazem uma desculpa efetiva?
Várias explicações foram dadas para esta alta incidência de desculpas incluindo o surgimento do liberalismo dentro das sociedades democráticas e as revoluções socialistas que promoveram os direitos humanos, com ênfase na paz e na cooperação, em vez de conflitos.Países que se reconstruíram após políticas ditatoriais e repressoras usaram “desculpas” como uma forma de facilitar a cura coletiva da nação e suavizar a transição para uma nova forma de governar. Era preciso promover a cooperação, a paz, a fé no dever moral universal e isto só podia ser feito com a aceitação da responsabilidade pelas injustiças passadas e recentes.
Lazare (2004:16) sugere também que houve uma mudança no equilíbrio de poder, fazendo com que grupos outrora impotentes, começassem a reivindicar seus direitos, lembrando desigualdades e iniquidades do passado. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas elaborada em 1948, tem seu impacto nesta promoção de remendos nos erros do passado, na medida em que exige que os países das Nações Unidas promovam o respeito universal dos direitos humanos e das liberdades fundamentais em relação à raça, sexo, língua e religião
Outra possível explicação é a globalização da informação através de nossas potentes mídias pois torna impossível que abusos políticos, internacionais e mesmo pessoais permaneçam na obscuridade. É o poder da opinião pública, com um aumento dos grupos de lobby em defesa das vítimas e grupos minoritários. Pedir desculpas muitas vezes é a estratégia usada para voltar a ter acesso à comunidade internacional que retalia o abusador e simpatiza com a vítima.
CULTURA E PERDÃO
Em cada cultura o pedido de desculpas tem uma forma e um peso moral específico, existindo até formas sutis de se pedir desculpas sem se desculpar, ou seja, sem assumir responsabilidade pela dor ou humilhação infringida. No Japão e em todas as culturas mais coletivistas[10] manter as relações interpessoais e a comunidade em harmonia é prioridade. O ato de se desculpar é considerado uma virtude e significa mais do que arrependimento, uma responsabilidade coletiva. É uma cortesia para todos quando uma determinada pessoa admite seu erro publicamente e se responsabiliza por ele, quase uma forma de limpar toda a comunidade de atos semelhantes que possam surgir no futuro. Um exemplo aqui seria o pedido de desculpas da estrela pop japonesa Minami Minegishi após revelações de que ela passou a noite com seu namorado: ela apareceu num vídeo no youtube, com a cabeça raspada, implorando ao público o perdão, em um ato de contrição tradicional.
Já nos Estados Unidos e Europa, onde o individualismo é mais acentuado, os erros são vistos como déficits individuais, redundando em culpa e demandando , muitas vezes, atos de reparação. Muitas empresas não pedem desculpas pelos seus erros, para evitar serem dilapidadas pelos pedidos de indenização. Por outro lado extremamente comovedor foi o ato de Willy Brandt , ex-chanceler alemão, que em 1970, diante do memorial às vítimas do holocausto em Varsóvia, ficou de joelhos, silencioso e de cabeça baixa por cerca de 30 segundos. Ele confessou, depois, que este ato foi totalmente espontâneo, pois lhe faltavam as palavras para dizer o quanto lamentava toda a dor causada pelo erros de guerra alemães.
Na China, a comunicação é frequentemente indireta e sutil. Quando um chefe quer dar uma reprimenda em algum funcionário, por exemplo, ele provavelmente o chamará para uma conversa privada, pedirá desculpas por estar lhe dizendo algo desagradável e fará a crítica. O pedido de desculpas no caso é uma forma de avisar que algo desagradável está por vir. Se alguém pedir desculpas para um chinês em público pode ofendê-lo, pelo excesso de constrangimento presente na cena.
Não há dúvidas que em todas as culturas é importante pedir desculpas, mas quando isto é feito entre culturas diferentes, é preciso levar em conta as distintas convenções sociais, sensibilidades e tradições políticas, além dos diferentes idiomas.
Muitos pedidos de desculpas são gestos vazios, uma expressão de arrependimento ou oferta de empatia, uma espécie de ato político para evitar litígio ou retaliações. Ex: “Lamento que você tenha se ofendido por algo que eu disse” – reparem que não há nenhum sinal de reconhecimento de que algo errado foi feito, apenas que o outro é sensível, talvez até, sensível demais.
Lauren Bloom, autor do livro “The art of Apology” relata um formato de pedido de desculpas condicional que, na realidade, é uma desculpa escorregadia ou uma não-desculpa , pois ninguém se responsabiliza por nada. Vejam:
…..Se eu fiz alguma coisa errada, peço desculpas”;
…. se o que eu disse ofendeu alguém…etc.
Nestes exemplos sarcásticos existe uma arte de falar sem falar e , eventualmente falar o contrário, afim de conseguir ser perdoado sem aceitar culpa alguma. Parte deste questionamento sobre as pseudo-escusas é filosófico pois, teoricamente, só se pode pedir desculpas por algo que cometemos pessoalmente. Muitos governos e empresas tem adotado uma forma genérica de se desculpar, do tipo: “lamentamos a todos aqueles que possam ter se sentido prejudicados….etc. Num exemplo concreto vemos o primeiro-ministro Tony Blair, na véspera do 200º aniversário da proibição da escravidão em navios britânicos dizer : “quão profundamente vergonhoso foi o tráfico de escravos. Também Bill Clinton incorre neste não –pedido pessoal, quando na África, pede desculpas pela inação do mundo todo durante o genocídio em Ruanda.
Pedir desculpas pela nação ou por todos os seres humanos é diferente de pedir desculpas por si mesmo, uma vez que a responsabilidade e a culpa ficam diluídas no tempo e no número de pessoas envolvidas.
Outra forma semântica travestida de remorso ou arrependimento é a voz passiva abstrata, que não identifica autores e ninguém assume a responsabilidade: “erros foram cometidos ….. (no passado ou no presente). Pedir falsas desculpas causa benefícios relativos para as vítimas, uma vez que atende à necessidade básica do ser humano de ter emoções desagradáveis reconhecidas. Quanto aos infratores os benefícios secundários são claros:
Mudam a forma como os outros os percebem;
Mantem os relacionamentos que de outra forma seriam prejudicados;
Evitam litígio e /ou evitam indenizações por negligencia;
Amenizam uma aparente ofensa ou impedem a sua repetição, com quando uma companhia aérea pede desculpa por um atraso.
Negociadores muitas vezes usam essa tática para acalmar situações tensas: um pedido de desculpas pode desarmar as emoções mesmo quando você não reconhece responsabilidade pessoal na ação ou não admite uma intenção de prejudicar.
Oscar Wilde[12], com sua inteligência mordaz bem apontou: ” Há um luxo na auto-reprovação. Quando nos culpamos, sentimos que ninguém mais tem o direito de nos culpar. É a confissão, não o sacerdote, que nos dá a absolvição “..
EFICÁCIA DAS DESCULPAS ( pessoais, diplomáticas e históricas )
Avaliar um pedido de desculpas não é tarefa fácil. Nas relações interpessoais nunca saberemos à priori como a outra pessoa vai responder , além de expor nossa vulnerabilidade e nos forçar a uma posição de humildade. Muitas pessoas respondem bem ao pedido de desculpas e também ficam vulneráveis permitindo e até melhorando a relação interpessoal; mas outras podem se sentir orgulhosas, e aproveitar este momento para triunfar e ficar arrogantes.
Muitos meses e anos podem se passar antes que um pedido de desculpas resulte numa retomada da relação e, muitos vezes esta retomada nunca acontece, pois pedir desculpas e ser perdoado são ações completamente independentes. A pessoa pode ser perdoada, mas a relação jamais ser retomada, por perda de intimidade e confiança seguras. Se, entretanto, corremos riscos e não temos garantias em relação à reação do outro, pedir desculpas traz muitos benefícios para nós mesmos.
Reconhecer os próprios erros é se fortalecer, é crescer como ser humano , estabelecendo metas de honestidade e dignidade. Reconhecendo o erro não incorremos no perigo de repeti-lo, nem de perpetuá-lo, tiramos o peso da culpa da contraparte, damos exemplos para futuras gerações ( filhos, netos, etc. ) de como a justiça pode ser feita, e, com sorte, não perdemos relações importantes.
Harriet Lerner em “Ciranda da Intimidade” e no recente livro Why want you apologize? estuda profundamente as dificuldades e ganhos pessoais do ato de pedir desculpas e de perdoar.
Pois bem , se nem no nível interpessoal é simples avaliar a eficácia dos pedidos de desculpas, como avaliar situações de conflito que envolvem povos diferentes, raças diferentes e até tempos diferentes, como no caso das desculpas diplomáticas ou históricas.
Testes empíricos e quantitativos estudam esta questão com resultados pouco claros. A maior parte destes estudos foca numa amostragem da população lesada ou em testes laboratoriais que simulam situações onde injustiças são cometidas, coletando os efeitos dos pedidos de desculpas. Outros trabalhos[13] focam na forma linguística e comportamental do pedido de desculpas listando critérios para que um pedido seja mais bem aceito do que outro.
Bobowik, M. & Páez, D. & Arnoso, M. & Cárdenas, M. & R. & Zubieta, E. & Muratori, M. (2017) [14],[15] estudaram, por exemplo, sistematicamente, os efeitos de pedidos desculpas dos governos pós ditatura militar, em 3 países da américa latina: Chile, Argentina e Paraguai. Concluíram que apenas no Chile eles não foram efetivos, pois lá , parte da amostragem mais jovem mostrava-se cética, crítica e sem confiança institucional. Nos outros dois países as desculpas desempenharam um papel de sucesso em contextos de transição, reforçando a confiança e segurança nas instituições. De forma geral estes autores sugerem que as comissões de justiça e reconciliação desempenham um papel bem sucedido como agentes da justiça e facilitadores da transição, reforçando a reconciliação.
Steele, R. R. e Blatz[16], C.W. (2014) estudaram o efeito do pedido de desculpas emocional do então Presidente Clinton para afro-americanos que participaram de uma pesquisa longitudinal sobre sífilis nos E.U.A. (ver tab.1). Concluíram que, mesmo as desculpas mais elaboradas não redundaram em perdão e confiança, conseguindo, no máximo, maiores percepções de remorso e normas de justiça. Outro estudo[17] sugere que, se uma organização violar um contrato psicológico e desejar reparar o relacionamento com a vítima, ela deve se concentrar em oferecer reparações adequadas, pois apenas um pedido de desculpas não aumenta o senso de poder da vítima nem diminui seu desejo de vingança.
A propósito das desculpas históricas, por crimes cometidos contra a humanidade, há, na literatura uma certa ênfase no elemento afetivo , destacando a sinceridade com que são feitas, os sentimentos de auto-reprovação (culpa, vergonha, tristeza) que são expressos e a compensação material para as vítimas. A Alemanha[18] parece ter sido muito melhor sucedida na sua forma de pedir desculpas aos judeus pelo Holocausto do que o Japão pelos seus crimes de Guerra .
Pedidos de desculpas formais, feitos em nome de uma nação correm o risco de desencadear direitos de reparação monetária. A escravidão de negros africanos é o melhor exemplo deste temor, pois nunca recebeu desculpas claras das grandes nações do mundo. Bill Clinton[19]em 1994, numa visita à África chegou perto, reconhecendo que os EUA nem sempre agiram corretamente com os descendentes africanos[20]. Em 2001[21], a Inglaterra foi acusada de impedir que a União Europeia fizesse um pedido de desculpas pelo comércio transatlântico de escravos.
Entre nós, brasileiros, o sistema de quotas universitárias[22] em processos seletivos para ensino superior foi regulamentada pela Lei 12.711/2011, e beneficia o acesso de estudantes da rede pública em instituições de ensino superior federais, com separação de vagas para candidatos de baixa renda, negros e índios. Além disso promove diversas políticas públicas para afrodescendentes visando a criação de oportunidades e a igualdade racial. Possui 65 artigos, sendo que o fator abordado mais importante é a inclusão das comunidades negras em diversos programas e vertentes da sociedade. Mas mesmo este ato reparatório levanta questionamentos e protestos. Nos Estados Unidos um sistema semelhante foi instaurado em 1960 , e abolido em 2007 pela Suprema Corte, com o pressuposto que o sistema de cotas em nada contribui para a igualdade das raças.
No Brasil a inconstitucionalidade da lei, a maquiagem na educação e o reforço do preconceito nas universidades são os argumentos mais usados por quem é contra as cotas.[23] . O historiador e escritor João José Reis[24], franco defensor da Lei das Cotas, assim se expressou na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) :
“Isso (cotas em universidade federais) é uma migalha diante da exploração a que foi submetida a África durante o
tráfico negreiro. É uma mão que se estende ao continente africano, mas é uma coisa quase que ridícula diante do orçamento nacional”.
Resumindo e para concluir este tópico, há argumentos contra e a favor da pratica de desculpas históricas. Dentre os argumentos contrários destacamos:
Não se pode julgar a culpa moral do passado pelos padrões do presente;
Pessoas mortas não podem responder e nem desdizer o pedido de desculpas;
Muitos políticos usam desculpas sobre o passado como salvo conduto para não agirem no presente.
Qualquer povo que pesquisar seu passado vai encontrar momento sem que foi vítima e outros aonde foi o agressor. Melhor olhar o futuro e fazer justiça daqui para frente. Quanto aos argumentos a favor, os mais relevantes são aqueles que encaram a história da humanidade como um processo em constante mudança, mas com memória e moral.
Abrir feridas do passado reconhecendo erros cometidos é apenas um primeiro passo de cura pública que pode começar com palavras e terminar em ações. É um ato simbólico , um marco, com efeitos poderosos, com ou sem reparação material. Porém seu funcionamento não é mágico, diz Marrus (2006). A dor de danos causados e vidas perdidas em guerras e genocídios não pode ser calada por palavras poderosas ou por dinheiro algum. Desculpas não podem desfazer o que foi feito, mas são preferíveis ao silencio sombrio e rancoroso, pleno de culpa por um lado e desejo de vingança por outro. Mesmo se forem rejeitadas as desculpas possibilitam:
O reconhecimento das irregularidades;
Validam reivindicações das vítimas;
Certificam a responsabilidade;
Incentivam o diálogo e a reconciliação;
Reforçam normas positivas, promovendo o repensar de direitos e deveres , ajudando a solidificar um consenso em direitos humanos.
São a única maneira de limpar o passado para que se possa sonhar com um futuro melhor e aliviar a herança de ódio e culpa que se deixa para futuras gerações.
O QUE TORNA UM PEDIDO DE DESCULPAS EFICIENTE?
Nem todo pedido de desculpas é eficiente. Muitos não contém nenhuma genuinidade ou reconhecimento do erro cometido, como as não–desculpas que citamos em capítulo anterior. O clássico: “ lamento que você tenha se ofendido”, ou “lamento que você tenha me entendido errado” − são exemplos deste tipo de pedido que agride duplamente a vítima: pela ofensa em primeiro lugar e no segundo por ter sido insuficientemente esperta para discernir o verdadeiro significado do que foi dito.
A pesquisa sobre desculpas interpessoais e históricas de Blatz C.W., Schumann K.; Ross M. (2009) sugere que uma desculpa abrangente deveria conter até seis elementos distinto, mas que se complementam:
Remorso (por exemplo, “Me desculpe”);
Aceitação de responsabilidade (por exemplo, “É minha culpa”);
Admissão de injustiça ou comportamento errado (por exemplo, “O que eu fiz estava errado “;
Reconhecimento de danos e / ou sofrimento das vítimas (por exemplo,” Eu sei que você está chateado “);
Promessa de agir melhor no futuro (por exemplo,” Eu nunca farei novamente “);
Oferta de reparação (por exemplo,” Eu pagarei pelos danos).
Cada um destes elementos atende a importantes necessidades psicológicas indicando que o agressor se preocupa com o bem estar das vítimas, reconhece seu sofrimento, absolve-as de qualquer culpa, está empenhado em defender um sistema social legítimo, justo e reparar com dinheiro ou leis os erros do passado. No caso de desculpas governamentais, por crimes contra a humanidade, outros itens podem ser agregados visando reparar, emocionalmente, o narcisismo grupal (Cukier, R., 2001) da maioria jovem, que não participou dos fatos relatados, e da minoria vitimizada:
Pode-se abordar a baixa consideração social da minoria vitimizada,
enfatizando as contribuições importantes e únicas deste grupo para a sociedade como um todo. Esses elogios visam confirmar qualidades positivas e demonstrar que as vítimas são valorizadas.
Pode-se enfatizar que os membros atuais da maioria são irrepreensíveis (nem eram vivos na época em que os erros foram cometidos) minimizando resistências ao pedido de desculpas. Trata-se de elogiar o atual sistema de funcionamento social.
O texto pode salientar as diferenças marcantes entre o governo atual e o anterior, distanciando e condenando as ações passadas, ressaltando sua visão diferenciada e progressista.
Lewicki, R. J., Polin B., Lountewian R. B. (2016) , da Universidade de Ohio, com uma amostragem de 755 participantes, conseguiram resultados semelhantes, concluindo que um pedido de desculpas é tanto mais efetivo quanto maior for o número de elementos, abaixo citados, que possuir em seu texto:
Expressão de arrependimento
Explicação do que foi feito errado
Reconhecimento de responsabilidade
Declaração de arrependimento
Oferta de reparação
Pedido de perdão
CONCLUSÃO – E O PSICOSOCIODRAMA PODE AJUDAR?
Como vocês puderam ver, este tema é maior do que eu supunha ao me deparar com ele no meio de um Sociodrama. Será que nós psicodramatistas, sociodramatistas, podemos ajudar? Será que o fato de terem pedido desculpas ( ver apêndice 1) num sociodrama, modificou algo nos participantes do nosso workshop?
Sabemos que erros cometidos no passado por nós ou contra nós , por nossa família ou contra nossa família permanecem como “negócios inacabados” na sociedade e no nosso psiquismo. Existe um dano transgeracional , uma vez que o impacto de traumas severos se transmite para sucessivas gerações . (Schutzemberger A. A., 1997). Compartilhar nossas feridas herdadas, nossas lealdades invisíveis ( Nagy, I. B. ,1983), perceber o reflexo destas questões em nossa conduta adulta atual pode sim, acreditamos ser muito benéfico.
Quanto à eficácia do sociodrama nesta questão, teremos que continuar pesquisando. Cada sociodrama terminado sempre abre a perspectiva de novos sociodramas. Por isso quero concluir este artigo prospectando qual direção futuros sociodramas poderiam tomar para continuar agregando conhecimento a esta questão:
Cada pedido de perdão poderia virar uma vinheta a ser psicodramatizada, onde as várias partes do conflito ganhariam voz;
As dores listadas poderiam ser categorizadas num próximo sociodrama, dando origem a pequenos grupos: grupos das dores pessoais; grupo das dores familiares, grupo das dores culturais e/ou históricas, grupo das dores religiosas, etc. Uma multiplicação dramática mostraria as diferentes ressonâncias de cada conflito exposto e até poderiam surgir propostas de novos papéis , mediações, etc.;
Poderíamos começar um sociodrama pedindo a todos que ouçam o pedido de desculpas que mais gostariam de ouvir na vida. A partir daí poderíamos compartilhar em grupo, criar imagens das sensações produzidas e , através de escolhas sociométrica, trabalhar com algumas imagens. Ou ainda pedir que nos ofertassem estes pedidos de desculpas, para que o grupo os encenasse livremente, sob a direção do autor ;
Ou , ao contrário, poderíamos começar um sociodrama com os pedidos de desculpas que os participantes gostariam ter a coragem de fazer. Várias cenas poderiam ser protagonizadas a partir daí;
Poderíamos trabalhar com nossa própria Instituição de Psicodrama e ver quais pedidos de desculpas deveriam ser emitidos;
Poderíamos trabalhar com oferecer ou recusar o perdão e que exigências faríamos para retomar relações difíceis; etc.
Poderíamos dividir o grupo ao meio: metade jogaria o papel do agressor e metade o da vítima. Após algum tempo de interação e jogo livre pediríamos que invertessem os papéis- a metade vítima se tornaria o agressor e vice –versa. Em seguida um caminhar introspectivo, para que cada um pensasse em sua própria vida e nos reflexos que o jogo agressor-vítima deixa em si.
BIBLIOGRAFIA
AARON LAZARE – (2004)- On Apology, Oxford University Press.
BLATZ C.W., SCHUMANN K.; ROSS M. (2009)- Government Apologies for Historical Injustices, Political Psychology, Vol. 30, No. 2.
BLOOM L.(2014) – “The art of Apology” ,Fine & Kahn, U.S.A.
CELERMAJER, DANIELLE. 2006. “The Apology in Australia: Re-Covenanting the National Imaginary.” In Taking Wrongs Seriously: Apologies and Reconciliation. Elazar Barkan and Alexander Karn. Stanford: Stanford University Press.
CUKIER, R. (2001)- O Psicodrama Da Humanidade. Utopia , Será? , In, Costa, Ronaldo Pamplona (2001)- Um homem d frente de seu sempo : o psicodrama de Moreno no xeculo XXI, 171-189, Editora Ágora, São Paulo.
DE CREMER, D., & SCHOUTEN, B. (2008). When apologies for injustice matter: The role of respect. The European Psychologist, 13, 239–247.
DE CREMER, D., VAN DIJK, E., & PILLUTLA, M. (2010). Explaining unfair offers in ultimatum games and their effects on trust: An experimental approach. Business Ethics Quarterly, 20, 107–126.
LERNER, H. ( 1989)- A ciranda da intimidade; Editora Best Sellers
LERNER, H. (2017)- Why won’t you apologize? Healing big betrayals, Touchstone books,
LEWICKI, R. J., POLIN B., LOUNTEWIAN R. B. (2016) – An Exploration of the Structure of Effective Apologies in Negotiation and Conflict Management Research · May 2016
MARRUS R. M.( 2006)- Official Apologies and the Quest for Historical Justice , Munk Centre for International Studies, Toronto, Canadá.
NAGY BOSZORMENYI I. –Lealtades Invisibles (1983)- Editores Amorrortu- Buenos Aires
NICHOLAS TAVUCHIS(1991)- Mea Culpa, sociology of apology and reconciliation, Stanford University Press
SCHUTZEMBERGER, ANNE A. (1997)-“ Meus antepassados”, Editora Paulus.
SIGAL, J., HSU, L., FOODIM, S., & BETMAN, J. (1988). Factors affecting perceptions of political candidates accused of sexual and financial misconduct. Political Psychology, 9, 273–280. Brooks/Cole
TOMLINSON, E.C., DINEEN, B.R., & LEWICKI, R.J. (2004). The road to reconciliation: Antecedents of victim willingness to reconcile following a broken promise. Journal of Management, 30, 165–187.
VOLKAN V. (2013)- Large-Group-Psychology in Its Own Right: Large-Group Identity and Peace-making, International Journal of Applied Psychoanalytic Studies, Volume 10, Issue 3
September, 210–246.
APÊNDICE 1
PEDIDOS DE DESCULPAS
Nós, os …… (nome da tribo) pedimos desculpas aos …..(nome da tribo) por termos…..no passado
Nós, os filhos, pedimos desculpas aos pais, por termos copiado os seus comportamentos no passado.
Nós, os Maias, pedimos desculpas a todas as outras tribos, por tê-los excluído no passado.
Nós todos, pedimos desculpas a todos, pelas ofensas do passado.
Eu, peço desculpas a meu irmão e minha mãe, pelo meu pai, por ter feito o que ele fez a eles, no passado e espero que ele se redima.
Nós, os brasileiros herdeiros, pedimos desculpas aos brasileiros, por termos permitido a desigualdade social, no passado.
Nós, os japoneses, pedimos desculpas aos paulistas, por termos mostrado frieza, no passado
Nós, os português, pedimos desculpas aos negros e índios, por termos maltratado, humilhado e até matado eles no passado.
Nós, os evangélicos, pedimos desculpas aos outros seguidores de outras religiões, por termos sido intolerantes com as diferenças de pensamento , no passado.
Nós, os mineiros, pedimos desculpas aos brasileiros, por termos sido sempre passivos, no passado
Nós, os adultos pedimos desculpas ás crianças, por termos abusado delas, no passado
Nós, os gaúchos italianos, pedimos desculpas aos “nortistas”, por termos preconceito pela diferença, no passado
Nós, os homofóbicos, pedimos desculpas aos gays, por termos ofendido, no passado.
Nós, as famílias X, pedimos desculpas a todos, por termos sido muito exigentes e críticos, no passado
Nós, os paulistas, pedimos desculpas aos YY e Japoneses, por termos sido preconceituosos, no passado
Nós, os alemães , pedimos desculpas aos italianos, por termos guerreado com vocês e termos destruído suas casas, histórias e sonhos, no passado
Nós, os pais, pedimos desculpas aos filhos por termos oprimido, causando inseguranças e medos), no passado.
Nós, os XYZ pedimos desculpas a filha, por termos desejado destruir a imagem que ela tinha do pai, no passado.
Nós, os mineiros pedimos desculpas aos brutos, por termos tanta agressividades, falta de amor e afeto, no passado.
Nós, os nordestinos tradicionais do interior, pedimos desculpas à humanidade, por termos atuado com preconceito velado contra eles, no passado.
Nós, de origem nordestina, pedimos desculpas aos negros e mulheres, por vários tipos de violência e racismo que expressamos, no passado.
Nós, os descendes de italianos, pedimos desculpas aos nordestinos, negros, pobres, homossexuais, por tê-los rebaixado, ridicularizado e condenado no passado.
Nós, os baianos pedimos desculpas aos negros e índios, por termos explorado, maltratado no passado.
Nós os mineiros, pedimos desculpas aos baianos, por termos humilhado dentro da igreja no passado.
Nós, pais nordestinos, pedimos desculpas aos nossos filhos, por termos sido autoritários e opressores no passado.
Nós, os paulistanos, pedimos desculpas aos estrangeiros, por termos tratado vocês de forma diferente e hierarquizado no passado
Nós, brasileiros, pedimos desculpas aos indígenas, por termos queimado e maltratado indígenas no passado.
Nós, os judeus, pedimos desculpas aos palestinos por estarmos tirando sua terra. Nada no passado justifica nossa atitude.
Nós, os avós judeus, pedimos desculpas às novas gerações, por termos perpetuado a ideia de que a união entre judeus é sempre melhor.
Nós, os judeus, pedimos desculpas aos árabes, por termos promovido matanças, no passado e presente.
Nós, os homens pedimos desculpas as mulheres, por termos desrespeitado no passado .
Nós, os homens pedimos desculpas as mulheres, por termos oprimido, segregado e desvirtuado seus valores no passado
Nós, os ciumentos pedimos desculpas aos iluminados, por termos censurados e importunado sua liberdade no passado
Nós, os religiosos cristãos, pedimos desculpas às crianças, por termos decepcionado elas no passado.
Nós, os espiritas, pedimos desculpas aos evangélicos, por insultá-los e discriminá-los, no passado.
Nós, os torcedores agressivos, pedimos desculpa aos torcedores em geral, por termos provocado violência no passado.
Nós, alegria, pedimos desculpas a alegria, por termos – sermos egoístas, no passado.
Nós, os “amigos”, pedimos desculpas aos amigos, por termos feito tanto mal à você e ter afetado tanto sua vida, no passado
Nós, os criativos, pedimos desculpas aos científicos, por não termos dado a atenção que mereciam no passado.
Nós, os professores, pedimos desculpas aos alunos(as), por termos humilhado vocês, no passado
Nós, os exigentes, pedimos desculpas aos livres, por termos exigido que eles fossem perfeitos e nunca errassem no passado
Nós, os superiores, pedimos desculpas aos “inferiores”, por termos humilhado, segregado, ofendido, no passado
Nós pais, pedimos desculpas aos filhos, por não termos valorizado o lugar de cada um membro desta família no passado.
Nós, os Pais, pedimos desculpas aos filhos, por termos sido autoritários e opressivos no passado
Nós, s família FFF, pedimos desculpas por termos dado mais valor às coisas materiais do que às pessoas no passado
Nós, as mães, pedimos desculpas aos filhos, por termos descontado nossos problemas neles no passado.
Nós, os Cintra pedimos desculpas à Vó, por termos rompido com ela no passado.
Nós, os antepassados, pedimos desculpas aos novos familiares, por termos perpetuado uma cultura crítica , de julgamento no passado
Nós, as matriarcas, pedimos desculpas aos filhos, por termos omitido o homem e o masculino.
Nós, os Brutos, pedimos desculpas aos mineiros, por termos sido tão brutos, ignorantes, orgulhosos e violentos no passado.
Nós, os administradores, pedimos desculpas aos trabalhadores, por termos sido filhos incompetentes e prepotentes no passado
Nós, os silenciadores, pedimos desculpas aos que tem voz, por termos tolhido a voz dos que tinham coragem no passado
[1] Psicóloga, psicodramatista didata supervisora, pela SOPSP. Mestre em psicologia social, pela PUCSP. Professora do curso de Formação em Psicodrama convênio SOPSP-PUCSP. Atendimento psicoterapêutico adulto, casal e família. Consultoria em Escolas, Empresas, Instituições. Pesquisadora sobre Psicodrama e relações interétnicas.
[2] Cristine G. Massoni -Psicóloga (Mackenzie-SP), Psicoterapeuta, Psicodramatista-didata, professora-supervisora em formação na Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP).
[3] Cukier, R.- Sobrevivência Emocional: as dores da infância revividas no drama adulto, Editora Ágora, 1998
[4] Cukier, R. – em “Psicodrama Da Humanidade. Um Homem Á Frente De Seu Tempo. O Psicodrama De Moreno No Século XXI, Editora Agora, 2001
[14] Bobowik, Magdalena & Páez, Darío & Arnoso, Maitane & Cárdenas, Manuel & Rimé, Bernard & Zubieta, Elena & Muratori, Marcela. (2017). Institutional Apologies and Socio-emotional Climate in the South American Context. British Journal of Social Psychology. . 10.1111/bjso.12200.
[15] Cardenas, M., Paez D., Arnoso M., E Rime, B. ( 2013) The Perception of the Socio-emotional Climate and Institutional Trust in Victims of Political Violence: Impact Assessment of the National Commission of Truth and Reconciliation.Psykhe [online]. 2013, vol.22, n.2, pp.111-127. ISSN 0718-2228. http://dx.doi.org/10.7764/psykhe.22.2.572.
[16] Steele, R. R. e Blatz (2014)- Faith in the Just Behavior of the Government: Intergroup Apologies and Apology Elaboration, Journal of Social and Political Psychology, vol.2, n° 1.
[20] Estima-se que cerca de 900 mil negros africanos vieram para a América no século 16, 2,75 milhões no século 17, 7 milhões no 18º e mais de 4 milhões no 19º – talvez 15 milhões no total. Um verdadeiro Holocausto negro. http://abhmuseum.org/what-is-the-black-holocaust/
Sempre fui fascinada por novas descobertas cerebrais. Acho que o cérebro é a nossa Caixa de Pandora mais preciosa, que ao invés de liberar todos os males do mundo, acabará por revelar os mistérios do corpo humano.
Pois bem, acabei de ler dois livros de um mesmo autor que recomendo fortemente: O Cérebro que se transforma e O cérebro que cura, de Norman Doidge, um psiquiatra, psicanalista, escritor e pesquisador de Toronto.
O autor descreve, de forma simples e didática, várias pesquisas recentes que demostram a neuroplasticidade cerebral e a incrível capacidade que o cérebro tem de se curar se for estimulado de forma correta.
Contrariamente à crença original de que, após a infância, o cérebro começa um longo processo de declínio, ele nos mostra que nossos cérebros têm o poder notável de crescer, mudar, superar as dificuldades, aprender e se recuperar. Joga um sopro de esperança para todos nós, desde as crianças com diagnóstico de autismo e paralisia cerebral, passando pelas vítimas de acidente vascular cerebral e lesionados da coluna vertebral até os mais velhos, vítimas de Mal de Parkinson e Alzheimer.
Nada parece tão definitivo no cérebro após lermos este autor, pois corretamente estimulado através de eletricidade, sons e outros exercícios, pode recuperar-se e criar emaranhados de neurónios contíguos aos que foram lesados e que substituem a função daqueles. Vejam alguns exemplos:
Cheryl não tem o aparelho vestibular, órgão do ouvido responsável manutenção do equilíbrio. Ela precisa se apoiar nas paredes e vive uma eterna vertigem. Paul Bach-Rita criaram um capacete com um estimulador elétrico lingual que fez com que ela recuperasse e recriasse esta parte do cérebro. O melhor é que depois de um ano, ela já podia ficar sem o capacete e se beneficiar de um efeito residual, ou seja seu cérebro aprendeu um caminho novo e recuperou suas funções. Este trabalho tem sido usado com trauma cerebral, acidente vascular cerebral e Mal de Parkinson.
Michael Verzenich , professor emérito de neurociência da universidade da California, afirma que exercícios cerebrais podem competir com drogas para tratar a esquizofrenia e que a função cognitiva pode melhorar radicalmente nos idosos. Trabalhando com um macaco, ele mostrou como os mapas cerebrais são dinâmicos e funcionam pelo princípio “usá-lo ou perder”. Quando o dedo médio de um macaco foi amputado, outros dois dedos assumiram o espaço original do dedo médio, usando-o sozinho.
Um cirurgião sofre um acidente vascular cerebral e perde a movimentação de um dos braços. Para estimular mais esta região lesionada, seu braço bom é imobilizado, fazendo com que seu cérebro seja obrigado a lembrar suas habilidades. No início qualquer tarefa com o braço ruim é impossível, mas aos poucos o cérebro estende a rede neuronal do lado bom assumindo as tarefas do lado lesionado. Ele aprende até a escrever novamente e jogar ténis.
Bárbara e Joshua Cohen, abriram o Arrowsmith School em Toronto, aonde desenvolvem exercícios mentais para crianças com dislexias, assimetrias cerebrais, deficit de atenção e distúrbios de aprendizagem. São exercícios que forçam o cérebro a treinar partes menos desenvolvidas. Por exemplo, usam um tapa–olho para forçar o imput visual no olho mais fraco, usam alfabetos persas e urdu para estimular a memória visual, desenhos, etc. São exercícios específicos desenvolvidos para cada criança, a partir de um diagnóstico preciso de qual a área de seu cérebro que não funciona direito. Testemunhos de vários casos comprovam a eficácia deste método.
Enfim os dois livros de Doidge são fascinantes, cheio de casos que parecem miraculosos e de formas atípicas de estimular o cérebro Aprendemos que nossos pensamentos tem o poder de ativar e alterar nosso funcionamento cerebral , máquinas podem permitir que uma pessoa com paralisia controle computadores e aparelhos eletrônicos e exercícios atípicos podem aumentar nosso poder de cognição e percepção, posturas e manipulações corporais podem realinhar o cérebro, etc.
Valeu a leitura, fiquei com vontade de fazer exercícios para aguçar minhas funções cerebrais e recomendar estes exercícios para vários amigos.